Vinho Novo em Odre Velho

Existe uma parábola em que Jesus diz que não se pode derramar vinho novo em odre velho, pois o vinho fermentaria e rasgaria o odre, perdendo-se tanto o recipiente quanto o vinho. Esse texto nunca fez muito sentido para mim; sempre pareceu distante, como um dizer antigo, apenas mais uma parábola. O fato é que eu não compreendia a riqueza de significados contidos nesse pequeno texto.

O vinho novo representa o novo que a vida apresenta: novos sonhos, projetos, portas que se abrem. E o odre velho somos nós, quando permanecemos aprisionados em nossa zona de conforto, sem permitir que o novo nos encontre e frutifique em nós e por meio de nós.

Mas, para que o vinho novo seja derramado, é preciso que o odre velho passe por um processo de transformação. Ele precisa ser mergulhado em água limpa por vários dias, até que o couro se torne novamente maleável e flexível. Após amolecer, o odre precisa ser escovado e untado com azeite de oliva. Esse processo ajuda a reidratar o couro, tornando-o novamente elástico e capaz de suportar a tensão, quase como um odre novo.

O processo de restauração do odre é semelhante ao processo pelo qual precisamos passar para deixarmos de ser odres velhos e nos tornarmos odres novos, prontos para receber o novo que a vida deseja nos oferecer. Para isso, precisamos deixar de lado nossa rigidez, cultivar flexibilidade e humildade, abandonando padrões antigos e nos abrindo às novas ideias que surgirão.

Quando iniciamos um processo de desenvolvimento humano, somos convidados a lidar com questões profundas que, ao longo do tempo, foram deteriorando nosso “odre”. Por isso, precisamos passar por um delicado processo de limpeza e restauração. Trata-se do nosso velho homem, da nossa antiga forma de agir, falar e pensar. Nossa própria identidade precisa ser remodelada, para que estejamos, de fato, prontos para o novo.

Tenho uma fé que me move dia após dia e, em cada processo de transformação, tenho a certeza de que estou sendo preparada para receber o novo de Deus. Ainda que o processo seja doloroso, a convicção de estar no centro da vontade d’Ele me permite confiar e descansar. Assim como o ouro passa pela forja para se tornar um metal precioso, nós também precisamos passar pela forja do Senhor, ou da vida, como preferir, para nos tornarmos mais parecidos com o Criador e mais preparados para receber o vinho novo que aguarda a nossa prontidão.

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Ostras felizes não produzem pérolas